Mudei para exilios...
dossiê;

acontece que vou 

                    caindo

                         nesse monte de pó celeste

Que não lembrou-se de brilhar rumo ao leste, nem do cometa que atrasou na rota oeste. Apesar de não ter rumo, sempre piso firme por medo do passo ser longo, ou curto demais para o plano. E quero dizer, mesmo que o expectador seja a parede meia cinza, num resto branco, uns gritos eclodidos.

Não cobre uma mudança se ainda está quando guarda-chuva na mão nesse sol do cangaço. Sendo que rasgo o dedo revirando nesse verde cheio de flores, e me pergunto porque ainda não faleceram. O fato é que não é porque não gosto de ir em lugares que lhe agradam, que deixo de não satisfazer-me em tua companhia.

Não é porque não lhe mando agora qualquer carta, que não quero de toda a raspa de minha alma que as lágrimas te molhem. Dentro de um quadro, me moldo. Dentro da carta, me faço. Dentro do quarto, me sinto. Dentro de ti, não me acho. Dentro de mim, me ache? 

O climáx de todo esse dossiê, consiste em que sou sonhadora de quinta viagem e pedi que flores falassem, que o céu brotasse um azul. E só caiu tempestade. Sendo que queria ser estrela, e desconhecia a lei de que num dia, elas somem e é tanto espaço, que não percebe que jaz no ventre frio. A desgraça, é que prendo um sentimento pesado em considerações levianas.

Gostaria que você ficasse. Mas você só falava português.

Luisa,

Não há uma clara evidência da capa do livro. Se as bordas sujas de mofo incitaram alergias incessantes. Nem a fonte da letra, se haviam figuras ilustrativas conforme o capítulo fechava. Na realidade, pouco recordava da aparência do primeiro livro que entreguei noites tão monótonas. Era um conto de amor, nem tão drástico e apelo meloso. Começava dizendo do cômodo e ao fim, resumia-se á fuga de amores antigos. Como leitora assídua, não substituía o vigor de linhas por passeios ao final da tarde. Um compromisso que sem pretensão, tornou-se contrato selado. O livro não fugia das mãos, e a realidade esvaziava dos olhos.

Havia também o motivo existente e subseqüente da descrença de laços. A ausência de crença em anjos e céu celeste, e o descaso por mirar o céu nos dias que o espelho feria… Prendia-se e vinculava eternidade numa vida que cai no ciclo das datas. O céu guardava almas que os dedos não conseguiam mais segurar. E isto, coibia-a.

Hoje, Luisa durava na quietude do quadro. Lembrando que a indiferença não implica em aceitação dos contrários. O professor propôs uma redação ao tema “se eu fosse invisível”. O cara na primeira carteira logo rumou para super-heróis, na habilidade de tele transportar num terreno qualquer. Luisa enraizava-se na realidade, e efeitos visuais não lhe surpreendiam. Talvez seja por isso que depois de um dia de cinema com alguns colegas, não retornaram o convite. Enquanto num único pensamento, triplicavam a exaltação de um filme de caráter científico ser tão “rico” em efeitos sonoros e visuais, Luisa remetia-se num olhar vago. Sendo que um dos indagou numa euforia quase infantil “Então Luisa, a melhor parte foi aquela que Bum. E ele fez BAM… Desculpa vai, qual a cena preferida?”. “Os créditos e um trecho logo no início de uma citação poética”. Fora quase beirando um descontentamento palpável que excluíram a individua de comportamento “estranho”. Quanto à redação, seria ovaciona pela habilidade poética.  A grande graça (não há graça), é que todo o texto, o único parágrafo que talvez veja o nome de Luisa, seja o cabeçalho um erro. Até o ponto, os poros impregnam-se na folha que não usou como lenço. Era incrível como a pequena garota, utilizava da arte, uma inspiração que não se tingia de cor.

Era uma vez. Eram duas vezes. Eram três…

A claridade portava-se no âmbito ameno. Chovia, como num domingo esperado. Era garoa inflexível e vidraça embaçada pelo vapor do quarto. Numa epístola sucinta, dissertava em meus resmungos velhacos o dia desestimulador. “A vida oferece-me a felicidade com esmolas no natal”. O dia estava infeliz, porque era antecessor de segunda e póstumo de sábado. Todavia, a realidade durava numa constate morte de dias. O sol nascia, mas as forças falecidas não se revigoravam, não despertavam de um sono profundo em meio ao aguaceiro fino e o frio dos orvalhos. Afora tudo isso, a preocupação de um indivíduo presente. Não saboreava com prazer uma sopa. Sopa não tinha gosto de nada. Sopa era para pessoas adoecidas e dias imutáveis. Não se simpatizava com sopa. Não queria sopa. E mesmo assim empurrava a colher cheia de legumes (ou o resto deles) num sacrifício admirável. Diante dos parentes não podia fazer feio. Não poderia ser a criança de cara amarrada e intolerável. Era de suma importância ser agradável perante aos gracejos interruptos dos avós. “Como cresceu”, “a flor desenvolve diante ao sol fulgente” – Eu era cravo. Eu era espinho – Não disse nada. Abocanhava em meio internas caretas, porque sopa era para ser gostado. Naquela hora, deveria. Enfim. Aproveitava ás horas do chá para zanzar pela casa. Três cômodos. Algumas janelas. O resto era normal de toda rua. Pequeno, absolutamente todo canteiro pequeno. Meu pai constantemente encontrava-se sentado de óculos remendados por fitas encardidas e vista neutra (se aquelas lentes caídas poderiam ainda ser denominadas assim) somando as contas mensais (que gastos? Eu male má apalpava o dinheiro Era uma alegria tão travessa que brincava com o passageiro). “Porque o céu não desaba neste instante? O que lhe segura papai?”. E se não obtinha uma resposta coerente, rodava a lista… Adorava a arte de indagar (adorava muito mais ainda que brincar na rua e pintar a parede nas horas só) Eu era estranha e diplomata. Incrédula e sisuda. Nariz empinado. Mais tão empinado que meus olhos turvavam-se ao norte. Gostaria de saber por que o queijo era queijo. Porque havia gosto de queijo. Porque era amarelo e não azulado. E por que o nome queijo? E remetia-me nos porquês… Além de que gente grande queria era viver de razão. Isso é certo! Isso é errado! Não mate, não minta, não roube, não inveje. Eram atitudes errôneas. Gente grande cria uma dependência viciosa do saber. De razões… A grande verdade era que não sabiam responder nada disto. Desconheciam de tudo. Gente grande era criança amedrontada, que por medo das dúvidas, resolveu perecer no escuro. Felizmente (ou infelizmente) eu adorava o sol. Eu era contente… E tão “não ligo para o que pensas” que logo a impressão era que morava com a felicidade. Alegre ao despertar. Eu era contente… ( pausa para suspiro) muito contente. Mas não era feliz. E para um ator, o papel fazia toda a diferença na peça.

Apesar de alegre, sinto-me ingrata. Ingrata, pois mesmo que a folha seja a única cor que me tomo que deito que falo… Não consigo dizer muito. A única que me salva e ainda sim, afogo-me.
Mário fora meu primeiro (amor, que seja). Sendo que logo apliquei uma maratona e ao final de poros e peito cansado, venceu em louvores. Comemoramos por dias. Ele fez tão bem, num esmo admirável que deixou-me dependente de tua boca e romances melodramáticos (não leia livros nesta época). De lance, aprendi em meio ao sono que por mais que a manhã acorde na frieza… Se estivermos bem com quem nos faz “ser”, aquentamos sete vezes o peso do mundo. Dobramos a eternidade e saudamos um “bom dia” para a vida.
O núcleo dramático de minha história rege num domingo. O resto da semana não sinto, e se ouço os vizinhos na sexta, fecho a janelas por medo dos risos tocarem-me.
Diante de folhas eu me escrevo, me protejo, me refaço e me mato. Uma arte bonita devo ressaltar diante de tanto martírio.
Não sei de fato, contabilizar quantas vezes apanhei a carta como se através da caligrafia torta e ríspida de Mário, pensei em trazê-lo. Não volta, nem explica o que deixamos para “depois”.
Na primeira semana, fui incapaz de escrever sequer um verbo. O olho marejava como um céu ensolarado que num instante escurece, e repentinamente a chuva desliza com o expectador de um sol escaldante. Quanta água você guarda no céu? As lágrimas impediam de juntar a data com “caríssimo”. Turvo e embaçado. Absolutamente turvo e engasgado.
Um triste fim intitulado de amor. Resignando-se no dizer de palavras vãs sublinhadas na perda. Tudo se dividia na dúvida de sermos insolúveis ou vertentes complicadas.
Mário segundo a vizinha do apartamento 120 estava bem. Muito bem. De modo que não sei o que seja “bem” na visão daquela senhora. Suponho que vive.
Quanto a mim, sofro menos.
Sou como um poço d’água de aldeia vasta do orvalho desbotado. Saciou todos e sinto uma sede de alma. Sou um poço que quando seca, trona-se fossa.
O que posso lhe dizer Mário? Eu rio nos dias tristes.
Eu tentei não ser pessoal - Exílios. 
O poeta morre na folha.

Você precisa saber que poetas morrem na folha de papel que rabisca. Na leveza da pena quem embaia a espada. Poetas falecem antes de terminar um título, e perecem no ponto que interroga, ou revoga, ou não termina o parágrafo. Poetas conversam com cartas sem ousar colocar teus nomes, nem dizem das pétalas que permeia a cama, e nem da alma que descoloriu. Você precisa saber que retratos serão pessoas tão quentes, que hoje não lhe trazem nada mais que a frieza da moldura. Você precisa sair de casa e ver a praça, preserva-se na movimentação das luzes, dos rostos que sabem lá pra onde vão. Encene no espelho aquela impetulância que teu nariz tão afinado transmite. E se de pessoas faltar, fique na cadeira, e segure um livro, pois por mais antigos que sejam ainda sim se tornam tão necessários. É incrível a relação que se pode ter uma história que nem lhe pertence, que o nome do autor nem se pronuncia certo na tua fala. Mas que cada capítulo há uma nova segurança posta na soma de páginas. E não dormes, tanto que recusa o almoço, pois se alimenta da satisfação de reciprocidade.  Eu lhe entendo como aquele autor que recomenda para um amigo um livro. Eu lhe vejo tão claro quanto um resumo feito ao final da leitura. Poetas são tão bem humanos, que é satisfatório aquilo que ele transmuta do “feio” para o “belo”. Eles choram com a mesma intensidade que chuva desliza na vidraça de teu quarto. Os ombros são tão pesados que as pálpebras já briguem entre si num espaço de luz. Você precisa saber que sou um poeta, e como todo “rimador”, eu assino meu nome ao final de toda aquela metáfora e o pobre leitor nem percebe o quanto falei de mim. Malditas palavras (MAL Ditas).

Antiga a-m-a-g-o!